Estudo compara eficiência de ares-condicionados brasileiros com japoneses e coreanos - IEI - International Energy Initiative - Brasil
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Estudo compara eficiência de ares-condicionados brasileiros com japoneses e coreanos

Estudo compara eficiência de ares-condicionados brasileiros com japoneses e coreanos

Tempo para leitura: 5 minutos

Pesquisa, produzida pela IEI Brasil e encomendada pelo iCS, calculou os impactos de aparelhos mais eficientes na conta de eletricidade dos consumidores, no meio ambiente e no setor elétrico

Os aparelhos de ar condicionado estão cada vez mais presentes no cotidiano dos brasileiros. No entanto, para garantir a refrigeração de um ambiente, esses equipamentos consomem muita eletricidade em comparação com outros eletrodomésticos e produzem efeitos nocivos, como a geração de gases de efeito estufa decorrente da produção da eletricidade consumida e pelo vazamento, quando há, dos próprios gases refrigerantes que circulam dentro dos aparelhos para fazer sua mágica confortante. Qual seria o impacto, para os consumidores e para a sociedade, se os ares-condicionados brasileiros fossem mais eficientes no consumo de energia? Com o objetivo de responder a essa pergunta, os pesquisadores da International Energy Initiative – IEI Brasil, coordenados pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), desenvolveram um estudo no qual os aparelhos de ar condicionado brasileiros foram considerados com os mesmos níveis médios de eficiência energética dos aparelhos do Japão e da Coreia do Sul, países tomados como referências de boas práticas na área.

Os resultados mostraram os efeitos que ares-condicionados mais eficientes no Brasil poderiam gerar em dimensões como a economia de eletricidade e, portanto, na conta paga pelos consumidores residenciais e comerciais; a geração evitada de gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento global; e a quantidade de eletricidade que não precisaria ser produzida em usinas para abastecer a sociedade. Entre as conclusões está a de que se os ares-condicionados brasileiros fossem tão eficientes quanto os coreanos e os japoneses, o consumidor comercial poderia comprar até cinco aparelhos com a economia na conta em dez anos de uso (a vida útil do ar-condicionado), mesmo considerando uma tarifa de eletricidade sem aumentos nesse período. Para o consumidor residencial, essa economia equivaleria ao valor de um novo aparelho de ar condicionado, ou seja, ele pode comprar um novo apenas com a economia obtida por serem mais eficientes.

O relatório também mostra o quanto de economia de energia para o setor elétrico produziriam os ares-condicionados mais próximos dos níveis de eficiência coreano ou japonês. A eletricidade economizada anualmente pouparia o gasto de cerca de R$ 142 milhões com a construção de novas usinas e evitaria a construção de até quatro usinas termelétricas, aquelas que produzem eletricidade a partir da queima de algum material combustível, movidas a gás natural. Essa economia no consumo de eletricidade também impactaria na quantidade de emissões de gases de efeito estufa: no período de um ano as emissões evitadas seriam o equivalente a tirar de circulação todos os seis milhões de automóveis da cidade de São Paulo por uma semana.

Para fazer cálculos como esses, o estudo precisou lidar com a carência de informações sobre o mercado de ares-condicionados brasileiro. Por isso, foram adotadas algumas premissas, baseadas em dados de instituições e autores, que guiaram a elaboração do relatório. O estudo considerou para a análise, por exemplo, os ares-condicionados do tipo janela e split (confira as diferenças entre esses dois tipos na seção IEI Explica) nos setores residencial – que concentra 80% dos aparelhos – e comercial – que possui 20% dos ares-condicionados – para as estimativas de consumo de energia elétrica. Esse percentual foi o mesmo considerado para a proporção de vendas dos aparelhos nos cálculos do relatório.

Os níveis médios de eficiência dos ares-condicionados da Coreia e do Japão foram comparados com a eficiência média dos equipamentos vendidos no Brasil, que foi calculada com base em dados e estimativas do ano de 2015. O Coeficiente de Desempenho (COP) Médio da Coreia, utilizado no estudo da IEI, foi de 3,78 e o do Japão de 4,1. Já o valor médio brasileiro foi calculado em 3,10, um valor muito inferior ao desses dois países.

“Mesmo diante da carência de dados públicos disponíveis, o estudo conduzido pela IEI já sinaliza que é possível o Brasil avançar para níveis de maior eficiência no setor de ar-condicionado, com ganhos consideráveis para a mitigação de gases de efeito estufa e para o consumidor final”, afirma a coordenadora do projeto Kamyla Borges da Cunha, do iCS. “O estudo aponta também para a urgência de uma ampla discussão na sociedade sobre a contribuição que o aumento da eficiência energética do ar-condicionado pode oferecer para o setor elétrico brasileiro”, completa a coordenadora.

Atualização dos níveis

De acordo com o diretor da IEI Brasil, Gilberto Jannuzzi, “o Brasil possui instrumentos importantes e avançados para acelerar o progresso tecnológico e o aumento de eficiência dos equipamentos utilizados aqui no país”. O grande desafio, no entanto, segundo ele, tem sido “estabelecer métricas confiáveis para justamente avaliar o progresso dessas medidas. Desde 2001 é possível estabelecer o nível mínimo de eficiência energética para equipamentos. Recentemente foi o caso do ar-condicionado, equipamento crescentemente importante no país”.

A presença dos aparelhos de ar condicionado nas residências dos brasileiros aumenta cerca de 10% ao ano de forma constante desde 2005, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Ministério de Minas e Energia (MME). Consequentemente, cresceu, também, a participação desse aparelho no consumo de energia elétrica e o peso no bolso do consumidor. Esse gasto de eletricidade, no entanto, poderia ter sido bem menor se os aparelhos fossem mais eficientes, o que é garantido por mecanismos como os padrões mínimos de eficiência energética – ou máximos de consumo – e a Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (Ence) do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel).

Essas ferramentas, no entanto, não são avaliadas e nem atualizadas de forma frequente, o que faz com que os ares-condicionados brasileiros tenham uma baixa eficiência. Somente em agosto de 2018 foram estabelecidos novos níveis de eficiência energética para os equipamentos brasileiros, entre eles os ares-condicionados. Os níveis mínimos atualizados do coeficiente de eficiência energética para cada tipo de ar-condicionado podem ser consultados na Portaria Interministerial MME/MDIC/MCTI nº 2/2018. A revisão desse padrão deve ser feita, no máximo, a cada quatro anos, mas a última para os ares-condicionados brasileiros havia sido feita em 2011, apenas.

No entanto, apesar dessa atualização, os níveis de eficiência energética brasileiros continuam aquém do que seria uma referência de boa prática em eficiência energética. Para se ter uma ideia, o padrão mínimo de eficiência energética atual do Brasil ainda está abaixo do de países como China, Paquistão, Vietnã e Arábia Saudita. Apesar das alterações nos níveis de eficiência energética, portanto, o cenário desenhado pelo estudo da IEI Brasil sofreu pouca alteração.

Além disso, uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) – publicada na edição nº 222 da Revista do Idec, de janeiro/fevereiro de 2019 – mostrou que o consumidor que busca os equipamentos mais eficientes, aqueles das tabelas disponibilizadas pelo Inmetro por meio do Programa Brasileiro de Etiquetagem, terá grande dificuldade de encontrá-los no mercado. Eis um exemplo dos resultados: dos dez ares-condicionados splits com velocidade constante (que não é inverter) mais eficientes selecionados pelo Idec a partir da tabela do Inmetro, apenas três foram encontrados à venda em lojas on-line.

Eis, portanto, o significado da comparação entre os ares-condicionados brasileiros e os coreanos e japoneses efetuada pelo relatório: “o trabalho produzido procurou realizar estimativas, mesmo com a carência que temos de informações mínimas disponíveis para esse tipo de avaliação, do impacto se melhorássemos a eficiência média dos equipamentos vendidos no Brasil. Os mecanismos que já temos no Brasil possuem esse papel, mas não eram atualizados há anos. Os padrões mínimos de eficiência energética para ar-condicionado deveriam ter sido atualizados em 2014 e as faixas de eficiência energética da etiqueta do Inmetro são as mesmas desde 2013”, resume o diretor da IEI Brasil. De acordo com a Portaria que atualizou os níveis mínimos de eficiência energética dos equipamentos, o prazo para que o Inmetro reclassificasse as faixas de eficiência energética das etiquetas para os ares-condicionados era de até o dia 31 de dezembro de 2018. Até o momento não há notícias de essa atualização ter sido realizada.

Por Gabrielle Adabo

Acesse o relatório “Impactos da Melhoria na Eficiência de Ar-condicionado”

Acesse o site do Projeto Kigali: kigali.org.br

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