O IEI Brasil leva o conceito de justiça social da filósofa Nancy Fraser para a área de energia. O conceito é parte da Teoria de Justiça Social dessa pensadora e é baseado no chamado princípio de paridade participativa (parity of participation): para se alcançar a justiça, é preciso ter arranjos sociais que permitam que todos interajam uns com os outros como pares, de igual para igual. O caminho para isso é satisfazer as condições que chama de redistribuição econômica, reconhecimento cultural e representação política.
Fraser parte da definição de injustiça, que define como mecanismos sociais que vão impedir a paridade de participação ativa na sociedade, e as divide em categorias para pensar em ações e caminhos para soluções que consigam ser transformadoras da realidade. O foco são ações transformativas que desestruturem padrões de injustiças. As injustiças econômicas, para ela, estão relacionadas à subordinação e à desigualdade de classe; já as injustiças culturais, se manifestam em normas sociais e institucionais, como leis e políticas. Segundo ela, a justiça social só pode ser alcançada com políticas que integrem as diferentes dimensões de justiça (e injustiça) que se manifestam em nossa sociedade.
A teoria da Justiça Social é uma base importante para o IEI Brasil para a compreensão das desigualdades, para entender as injustiças na área de energia e pensar em saídas para elas e para a busca da equidade no setor energético.
Outro ponto importante da teoria é que as diferentes dimensões de justiça estão interligadas e não podem ser trabalhadas de forma isolada umas das outras – elas se retroalimentam. É aqui que entra a perspectiva interseccional, que contribui para considerar esse entrelaçamento das opressões. Na área de energia, isso quer dizer que para alcançar a equidade, as políticas energéticas devem ir além da simples distribuição uniforme de recursos – elas precisam considerar as desigualdades estruturais que afetam o acesso de diferentes grupos sociais aos recursos energéticos, em especial mulheres e outros grupos socialmente marginalizados. Reconhecer e valorizar as experiências e necessidades específicas de diferentes grupos sociais é crucial para a formulação de políticas energéticas inclusivas e para garantir a participação equitativa nos processos de tomada de decisão.
Quando fala de justiça redistributiva, Fraser se refere a uma distribuição mais justa de recursos e riquezas e ações como políticas sociais que garantam que recursos e oportunidades sejam distribuídos de maneira justa e equitativa – no contexto energético, isso significa garantir que todos tenham acesso equitativo a recursos energéticos e tecnologias.
A justiça pelo reconhecimento cultural quer dizer reconhecer que em nossa sociedade, membros de determinados grupos sociais não possuem o status de parceiros plenos nas interações sociais, o que pode gerar uma relação de subordinação social – no setor energético, isso significa compreender como as normas culturais e relações de poder operam, gerando assimetrias no acesso, no uso e nos impactos da instalação de grandes empreendimentos energéticos.
Já a justiça por representação política deve assegurar que todos os grupos sociais tenham voz e participação nos processos de decisão que afetam suas vidas – no setor energético, significa garantir que diferentes grupos sociais estejam representados em diferentes níveis de tomada de decisão, desde o planejamento de políticas até a implementação de projetos.